O comerciante de panos e a avó Delfina
A minha avó sempre conheceu como uma Senhora grande e com uma notável força interior.
Chama-se Delfina, minha avó. Era oriunda do norte de Portugal, exactamente, de uma aldeia actualmente da beira norte de Portugal, junto dos contrafortes de Trás dos Montes. Talvez por isso, e por esta aldeia tenha, conforme o desenho administrativo, pertencido ora a Trás dos Montes ora à Beira, a minha avó sempre se tornou atualmente transmontana. Como tiveram origem os Viscondes da Pesqueira por parte de mãe, e os Cunhas de Freixo de Numão por parte de pai, ambas as famílias segundo reza a história, ligadas aos começos da nossa nacionalidade.
A Senhora sua mãe casara, portanto com um fidalgo de teres e haveres, uma forte casa agrícola e uma casa Senhorial, mobilada com todo o requinte da época, em Freixo de Numão. Para aí a transferência e aí passar o resto da sua vida, calmamente, a criar os dezassete filhos, cuja ninhada a avó Delfina era a penúltima.
Educada dentro dos figurinos da época, com todo o retrato, estudada com preceptores que a ajudaram a desenvolver os valores, a bordar, a falar francês e a tocar piano.
Era uma moça muito bonita, magra, com cinturinha de vespa devido ao uso contínuo do espartilho, usava o cabelo enrolado a volta da nuca, pois como nunca o tinha cortado (já na altura tinha um tamanho específico.)
Uma vida corria-lhe de feição, numa aldeia como Freixo de Numão, em que a casa dos seus pais, do médico e do senhor Prior eram as únicas com o mínimo de comodidade. Todo o resto do casario foi construído á moda da região, com lousas sobrepostas, curral do gado no sobrado, por baixo da casa de habitação, sendo que o aquecimento central dos seus moradores era eficiente com o calor que exalava da respiração dos animais aí acolhidos, à noite. Não existiam também chamadas, e o fumo das lareiras e traseiras saíam aleatoriamente pelos buracos, enchendo as ruas tortuosas e um pouco limpas com os mais variados cheiros.
Pouco divertido tinha as meninas de então na terra agreste. Tirando as festas religiosas (com intermináveisprocissões de anjinhos e meninos desfilando dentro de caixões, para pagamento de promessas) as missas solenas onde se mostravam as últimas novidades de roupas feitas com tecidos vindos do Porto, e ainda arraiais,com as vendas de ofertas para angariamento de fundos para o Sr.
Foi de umas destas vezes em que a minha avó Delfina, à janela de casa dos seus pais, acompanhada pelas irmãs mais velhas e pela preceptora (nessas alturas não tinham permissão de descer a rua, nem acompanhadas) conheceu o comerciante de panos, de seu nome Jerónimo Bento Pereira, originário de Penafiel. Assim começou o encantamento recíproco.
Os dois eram na época muito jovens, os incapazes de resolver o problema que são as paixões apresentadas, uma vez que nunca poderia haver uma acessibilidade por parte dos meus bisavós para tal situação, deveras insólito devido à diferença social que envolvia. Então decidimos atuar por conta própria.
Na terceira vez que Bento, o meu avô foi feirar a Freixo de Numão, saltando por uma janela não vigiada, a minha avó foi juntar-se ao seu amor de sempre e fugiram, ambos, para Penafiel, onde chegaram, felizmente são e salvos da sanha familiar, que, só mais tarde, ao terem as primeiras notícias da filha desaparecida, se celebre. Os meus bisavós decidiram desejar um membro da família tão conveniente, não lhe entregando o devido pelo laço matrimonial e nunca mais aceitando qualquer tipo de contato.
Em Penafiel os dois jovens viveram horas felizes em casa dos meus bisavós paternos (de cuja história nunca se soube nada). Aí nasceu a primeira filha do casal, a minha tia Clotilde. Desde o início que o avô Bento se apercebeu de que os trajes e a forma de viver da sua amada eram muito dispendiosos, e assim, decidiu emigrar para África. Em Lourenço Marques (Maputo) pertenceu aos quadros da polícia local onde fez um bom trabalho, tendo mesmo chegado a posição de chefia. Entretanto o tempo tinha passado a separação da família já ia em 10 anos e o meu avô, já com uma vida desafogada, mandou que a minha tia fosse ter com ele.
Se bonita era a avó Delfina, não menos o era o avô Bento; cara redonda, olhos que remetem a dois holofotes e um bigode, todo reviradinho nas pontas, enfeite esse de se lhe tirar o chapéu. Ainda tenho uma fotografia dele, de meio corpo, que se sentou na parede atrás da cabeceira da cama da minha avó, e que me custava imensamente enfrentar, uma vez que, qualquer que fosse o angulo que para ela eu olhasse, os seus olhos seguiam-me sempre.
A chegada das duas foi grandemente festejada pelo avô Bento. Já tinha conseguido uma casa para todas e algumas mobílias, de acordo com as suas possibilidades, não unicamente financeiras que ela até foi bem empregada, mas devido às carências que existiam na terra, relativamente aos artigos considerados não de primeira necessidade, mas que na realidade o eram, o que se tornou uma forte razão para os homens da terra não trazerem as suas famílias para a África de então.
Sempre que me lembro deste feito dos meus avós, vem-me a memória, com um certo pasmo, a casa de ferro, construída com chapas de navio aparafusadas, residência de António Enes, um dos primeiros Governadores de Moçambique, e da família, cuja temperatura interior rondava 40 graus centígrados ou mais até, e onde a maior parte morreu dela por falta de condições e a malária.
Mas a minha avó ficou contentíssima. A terra de origem ficou-lhe para trás, mas já trazia a ideia da possibilidade de virem ter consigo uma sobrinha da sua criação. A Purificação, que já casada e com duas filhas, estava interessada numa vida que a aldeia nunca lhes poderia proporcionar. Assim foi e mais tarde as duas conseguiram juntar-se em terras tão distantes.
A vida corria-lhe sem canseiras. Tinha criado e os moleques necessários para lhe tornarem uma vida mais fácil, e, embora continuasse com muitas saudades de Freixo, onde não voltara desde que de lá saíra, a companhia do marido e da filha facilitaram-lhe a integração.
Um ano depois de ter chegado às terras de África, nasceu-lhe outra filha, a Margarida. Quando tudo parecia bem (e não sei o que realmente aconteceu) a menina adoeceu e morreu, apenas com 3 anos de idade. Dizia-se na altura que a sua morte teve a ver com as quenturas do estio, húmidas e abafadas, que não tinham deixado a criança a medrar.
Ficou muito triste a minha avó mas, mulher de boa cepa que era, no ano seguinte apareceu a minha mãe. E a alegria voltou aquela casa e aquele casal que tanto tinha lutado para ser feliz e que tão enlevado sempre vivera.
Parecia realmente que a felicidade lhe entraria em casa. No entanto, estava escrito no livro da vida, que a minha avó não teria uma vida descansada e comum a qualquer mulher da família de então.
Dois anos depois da 3ª filha mandaram ter nascido, o meu avô morreu, vítima da pneumónica, doença cruel que, na altura, tantas vítimas fez.
O avô Bento foi enterrado no cemitério de S. José de lhaguene. Nunca soube porque, mas no panteão aos heróis da primeira grande guerra.
A avó Delfina viu-se mais uma vez sozinha, numa terra que ainda era estranha para ela, e que não assumia como sua. Ficou desolada e decidiu procurar emprego para se sustentar e para suas filhas. Nesse tempo não existia qualquer tipo de Assistência social, nem de ajuda. Valeu-lhe de início, a sua sobrinha, a Purificação, que entretanto sempre viera juntar-se a ela, mas esse apoio só poderia ser esporádico.
Empregou-se no Hospital Miguel Bombarda. Sem habilitações (o francês, a pintura, os bordados e o piano, pouco ou nada lhe serviram para poder provar ao sustento da família). A sua vida confiou-se desde ai a uma câmara escura onde, na altura se revelaram as radiografias dos doentes. Assim e até a reforma, aos 65 anos de idade, passou o resto dos seus dias encerrado naquele quarto escuro, com as mãos mergulhadas em água gelada e debaixo de luzes vermelhas, revelando e separando exames radiológicos, que, depois foram entregues a diversos médicos de serviço.
A família de Freixo de Numão, os meus bisavós principalmente, sabiam do que tinha acontecido quase um ano depois. Escreveu-lhe então a comunicar que ela deveria seguir imediatamente para a sua terra, onde como já tinha desaparecido o corpo do delito poderia viver calmamente com a família, que a ajudaria a educar as filhas, sendo-lhe então entregue o dote que lhe era devido desde o seu casamento, se este se tivesse realizado com o seu consentimento e com alguém a altura da família a que ela obteve.
Não sei quanto tempo a minha avó pensou no assunto. Tinha o mau feitio dos Cunhas, seus ancestrais pelo lado paterno o que fez que era dona de um coração do tamanho do mundo, capaz de dar a sua última camisa a quem precisasse mais do que ela, mas... era duríssima nas suas convicções e, portanto, dona e muito senhora do seu nariz.
Ninguém conseguiu demovela do que achava certo. E o certo, para esta senhora, única, foi o responder a esta carta com uma outra, onde agradecia a gentileza, mas onde também rejeitava as ofertas de apoio e o dote a que tinha direito e que poderia vir a ser o seu património pessoal; dizia ainda, nesta carta á família, com quem não entrará mais em contato durante quarenta anos, que estava empregada, independente e tencionava acabar os seus dias naquela terra, que a tinha tão bem recebido e onde se encontrava enterrado o homem da sua vida, por quem se apaixonara e por quem sairá de casa. Tencionava também educadas filhas sozinha.
Da família da minha avó, nunca a ouvi falar dela e pouco sabia. Lá em casa ( depois do casamento da minha mãe) falava às vezes da sua terra natal, bonita e das encostas dos montes ( verdadeiros desfiladeiros a pique cobertos de pinheiros bravios que faziam a riqueza da família) das festas da Senhora da Carvalhal, a virgem da devoção do povo da aldeia, das ruas.... mas nunca dá família ou da casa dos seus pais, meus bisavós.
Só muitos anos mais tarde, ao frenquentar a casa do Dr. Oliveira, advogado conhecido, cujos filhos andavam comigo no Liceu, vim a saber por este ilustre causidico, as minhas origens. O Dr. Oliveira era conterrâneo da minha avó e tinha uma elevadíssima consideração por ela e pela família que representava.
Foi então que percebi a simpatia dos médicos do hospital para com ela (uma trabalhadora com nível hierárquico tão baixo) e porque e que a dispensavam sempre a 5 feira a tarde.
E que as Senhoras da cidade, que sabiam das suas origens, pois algumas também eram oriundas de terras beiroas, e a cujo grupo pertencia também a esposa do tal Dr. Oliveira, a convidavam sempre para a sessão de maha-jong, que se realizava nessas tardes.
E a avó Delfina, tirava então o vestido de todos os dias, aparaltava-se toda e sentir-se, de novo, a Senhora fidalga, descendente dos viscondes da Pesqueira e dos Cunhas de Freixo de Numão.
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