UM GRANDE AMIGO

                                                                                      

                                                          AMIGO 

 

 Não anda na minha frente, pode ser que eu o siga.

 Não anda atrás de mim, pode ser que eu não seja um guia.

 Só anda do meu lado e seja meu amigo então.

                                                             Albert Camus

 

Tive um amigo com quem me cruzei durante várias décadas da minha vida.

Era um artista, um homem forte com cara de criança e, sempre que lembro dele, o vejo equipado com umas enormes opções de tiras de cabedal que estão frias, a nevar, ou no meio de um calor de rachar, o acompanhavam.

Era extremamente criativo e cultivava diferentes formas de fazer arte. Atualmente podem-se ver suas obras, podem-se admirar em vários museus de todo o mundo.

Foi criado em Moçambique e vários arquitectos, pintores, ceramistas, etc.

Antes da independência esteve presa pela política da polícia, mas logo a seguir teve várias cargas importantes no partido do poder. Enquanto sua obra se desenvolve.

A altura que mais me emocionou, foi vê-lo a chorar copiosamente quando foi proibido pelo partido do poder a não distribuir os seus quadros, porque pertencem ao povo. Então enviava os seus quadros para duas galerias, uma em Londres e outra em Paris, onde chegaram a trabalhar os dois filhos. Foi obrigado a fecha-las e foi um dos grandes desgostos da sua vida. Foi a única vez que isso me aconteceu.

Quando o conheci, já ele morava numa casa na Mafalala, projetada por um arquiteto seu amigo, que era um artista de vanguarda. Era uma construção de vanguarda, um retângulo com duas alas compridas e cheias de janelas dos lados que outras duas mais pequenas. No centro havia um pátio que seria uma sala de artes para criança do bairro.

Uma das alas mais compridas era a sua casa de habitação e a outra era a sua galeria, cheia das suas pinturas e ainda outros bordados a ponto a ponto de cruz. Á entrada, num pequeno hall que dava para a sua galeria localizada-se um busto da sua mãe, uma senhora com ar de "mãe de África."

Um dia convidou-me e a mais um amigo meu, para irmos festejar os seus anos na galeria. E fomos.

Na galeria, que estava vazia e onde sobressaiam as cores da sua obra, estava apenas num canto, uma cadeira com um espaldar bem alto colocado sobre um assento que era uma caixa fechada, trabalhada em madeira clara. Três ou quatro bancos também só de madeira esperavam os visitantes.

A iluminação adequada a cada quadro valorizava-o. As paredes eram todas brancas.

Eu, entretanto tinha escolhido a prenda na Empresa do meu Pai. Era um quadrado em plástico, forte, onde encaixava uma enorme bolo vermelha, do mesmo material. Era um candeeiro, uma novidade sueca. O meu amigo adorou, passou o tempo a acender e apagar a luz.

Muito tempo mais tarde, escrever-me um postal, já eu estava em Portugal que dizia assim: "..... as tuas acácias já floriram e eu já fui á empresa do teu pai onde comprei todos os balões iguais ai que me deste e prndurei-os no teto..."