Mestre

Publicado em 6 de agosto de 2026 às 15:55

D. Candinha olhou para fora da pequena janela da sua casa ligada à Escola Primária, para a neve a cair e deteve-se, um pouco, pensativa. Ali estava sozinho, a começar uma carreira que levaria até a reforma. Era a partir de agora, um Regente Escolar da sua aldeia.

Sentia-se feliz porque, eu sou independente, Daqui em diante.

Nascida na região do Douro, filha de vinhateiros, tinha sentido a mudança para esta região tão diferente e dura, mas gostava muito de crianças e de ensinar, tudo iria, certo correr bem. No entanto, senti um aperto no estômago. Não conheço ninguém.

Quem a tinha recebido foi o senhor Prior, que parecia, desde o início, com uma certa desconfiança. Era gordo, e não te interessava ninguém que lhe pudesse fazer frente. 

D. Candinha não era nada parecida com os seus paroquianos, Senhoras de uma aristocracia rural muito comum, Senhoras que ele bajulava constantemente, para conseguir tudo o que preciso para a sua pequeníssima e pobre paróquia.

D. Candinha era alta, magra, olhos muito azuis e uma expressão calma e doce. Não era católico, mas era cristão, o que lhe dificultaria um pouco a vida, pois teria, muitas vezes, que disfarçar o que sentia, para poder ser aceito naquela comunidade, tão estranho para si.

Mas, pronto, tudo se arranjaria. Ela estava ali para trabalhar, e gostava muito de crianças.

Devagarinho levantou-se e decidiu que eram horas de ir para a cama. O frio era muito e mais uma vez, iria deliciar-se com a leitura do seu autor preferido, Camilo, e com a sua obra "O Amor de Perdição". As histórias de Camilo levavam-na para situações onde lhe era possível conviver com a miséria humana, a um nível nunca por si sonhado. E desviava-a da realidade, que era bem mais sensaborona.

Foi até a Escola, ver se estava tudo em ordem. Tinha de se levantar cedo para fazer a sopa para as crianças e preparar a distribuição do leite, no intervalo. Quando elas chegassem só se concentraria no seu papel de professora - ensiná-las a ler e contar, mas também tentar dar-lhes regras de higiene e de conduta, que achava muito importantes para a sua vida futura.

As crianças eram-lhe muito queridas. Para Dª Candinha eram barro, em bruto, que ela teria de trabalhar bem, pois o futuro daquela terra teria de ser escrito por elas. Mas preocupava-a muito a forma como chegavam a Escola. Vinham a pé, chegavam completamente encharcadas, cheias de frio, e descalças.

E Dª Candinha sonhava com uns tamancos fortes para todos. Havia de conseguir. Mas não era com as capas de serapilheira que ela constantemente costurava para os ajudar a sentirem-se mais confortáveis. Ali tinha mesmo que as conseguir de alguém que lhes quisesse oferecer. As crianças eram cerca de quinze e duvidava se se viria a conseguir uma oferta.

E enquanto descascava as batatas para a sopa do dia seguinte, voltou de novo a sonhar no que tanto queria conseguir. Já imaginava a festa que faria na Escola, para a entrega das socas, convidando o senhor Prior, as Senhoras das Quintas e também os pais das crianças - no fundo a comunidade. Seria um dia memorável para todos. Mas teria de trabalhar muito para consegui-lo.

E não aguentou mais... e adormeceu em cima da mesa da cozinha.

 

já  de madrugada acordou, e foi então deitar-se para as poucas horas de sono que ainda lhe restavam, até ao amanhecer-

Estava a chegar o fim de semana e Dª Candinha iria ao mercadinho da aldeia abastecer-se, Era um dia diferente. Podia falar com os pais dos seus alunos e dar-lhes contas dos filhos, não poderia cumprimentar as Senhoras das Quintas, que só viriam no dia seguinte á Missa, e iria ainda falar com o senhor Prior, que achava que era seu dever fazê-lo.