A Filha do Senhor Coronel

Publicado em 13 de julho de 2026 às 20:29

Junto ao Lar Sagrado Coração de Maria, onde eu vivi, perto do Largo do "Rato", existia uma casa de Chá, muito antiga (que se chamava para nós ) e que pertencia a um Senhor gordo, muito simpático, o Sr. Miguel, onde nós costumávamos ir, ao fim da tarde, tomar um café com os nossos namorados.     A partir das três da tarde a casa enchia-se de estudantes, que podiam lá estar a conversar, a estudar, a discursar, até quando quisessem. As únicas regras era pouco barulho e respeito pelo dono da casa. Eu aparecia por volta das 4 horas da tarde, era p sitio que tínhamos para nos encontrarmos, eu para poder namorar com o futuro pai dos meus filhos.                                                                         

As mesas não eram muitas e, por isso juntavam-se a nós sempre alguns colegas, para nos fazer companhia.                                                                                   

    O ambiente era alegre, como acontece sempre que a juventude se junta e  por ali ficávamos até ao final da tarde.                                                                                     

   No meio daquela mocidade toda, aparecia também, uma Senhora de muita idade, muito magra, mas sempre muito bem arranjada, que se sentava na mesma mesa ( já devia estar marcada, porque eu nunca vi lá mais ninguém se sentar) e pedia todas as tardes a mesma - um copo de café com leite e uma sandes de fiambre. Vivia no primeiro andar do prédio da casa de Chá e, segundo parecia, o Sr. Miguel ainda a conhecera quando lá viviam também os pais, que ela acompanhara toda a vida. Eram clientes assíduos desde que o Sr. Miguel  comprara a sua casa de chá e, desde então o Senhor, que era Coronel, passaram a ser um amigo.                                                                                                     

   Os anos passaram e, naquela casa passaram a viver apenas este Senhor com a filha, que era quem tratava dele.                                                                                              

Quando nos contaram esta história, numa tarde de inverno, decidimos analisar o que se passava ali. A Senhora entrou, com um certo ar arrogante de grande dama, e sentou-se na mesinha de sempre. Tirou as luvas, colocou a carteira em cima de uma das cadeiras, e fez um sinal ao Sr. Miguel. Este, muito bem aprumado e com um guardanapo dobrado num braço, apressou-se e assim que chegou perto dela cumprimentou-a com a cabeça. A Senhora retribui o cumprimento com um pequeno aceno de braço e disse.                                                                                                      - Senhor Miguel, fazia-me a firmeza de me servir?                                                               - Sim minha Senhora é para já.                                                                                                      Então o nosso amigo foi até ao balcão, encheu um copo de leite o "tal galão" e preparou uma sandes de pão fresquinho, barrando-a de manteiga e acrescentando uma grande fatia de fiambre. Em seguida arrumou todo este repasto numa bandeja de metal e dirigiu-se à, Senhora que tinha permanecido quase imóvel no seu lugar e disse:

- Aqui está minha Senhora, espero que esteja a passar bem e que esta refeição lhe agrade.

Assim que ela começou a comer , retirou-se de novo para o balcão.

A Senhora começou então a comer, devagar, muito devagarinho, com um sorriso  nos lábios, de plena satisfação. Já quase no final da sua refeição, voltou-se para o balcão e utilizou de novo o sinal para chamar o Sr. Miguel.

- Queria que me dissesse se não se importa de me encher de novo o meu copo com café com leite. É que, realmente o café que continha era muito pouco. E, claro, pedia-lhe a fineza de me trazer mais um pouco de pão, porque está muito saboroso e assim ajudar-me a beber mais esta bebida.

E ele, claro, respondeu que teria muito gosto em servi-la de novo.

Perguntámos  ao Sr. Miguel o que se passava com a Senhora para ter tantas atenções. E ele então disse-nos que tinha muitapena dela, pois desde que o Senhor Coronel morrera ela estava a receber uma pequena quantia da pensão do pai e que, em honra dele, ele iria servi-la enquanto ela fosse viva, pois ers a forma de ter jantar. E também que era para ela pedir o que quisesse, tinha-lhe aberto uma conta só dela. E dizia-lhe sempre.

- Minha Senhora, vou colocar isso na conta . No final do mês acertamos.

Mas nunca o fizera...

 


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