3 - Parte

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 17:13

O Pinhal de Leiria

A viagem fez-se, "devegar - devagarinho", pois o pobre do Ford Perfect estava pesadíssimo, mas tentava responder sempre á função que lhe competia.

As crianças, entretanto, tinham adormecido de cansaço ( tinham-se levantado muito cedo e passaram horas e horas de viagem, sem se poderem mexer convenientemente).

Quando chegámos á entrada do Pinhal de Leiria, que tínhamos incutido sobre aquele lugar escuríssimo, que de noite era utilizado pelos ladrões que atacavam os incautos e os roubavam, era ainda de dia. Respiramos fundo, paramos um pouco e assim que todos tinham descansado, seguimos caminho.

A travessia foi realizada em estradas de terra batida, autênticas picadas que, de vez em quando, apresentavam grandes buracos que não ajudavam nada pois, o pobre do nosso carro dava saltos e por vezes caiu mesmo dentro deles.

A mãe ia de cara fechada. O pai deixou de fazer esforços para guiar á direita (vinha de uma terra em que se guiava á esquerda) mesmo tendo em conta o autocolante com a grande seta desenhada a indicar o lado direito.

A Avó ia de cara zangada, com as miúdas ao colo ( tinham para lá saltado com medo), e não falava com ninguém.

Eu encaixada num dos lados do banco, divertia-me a pensar como seria o resto da viagem.

Por fim, esfomeados, cansados, cobertos de poeira, lá conseguimos chegar ao fim do dito Pinhal, dentro do tempo permitido e parámos á entrada de Leiria, numa pequena tasca, pois não estávamos com um aspeto conveniente para podermos pensar em almoçar num restaurante decente.

A Avó dirigiu-se, entretanto, ao balcão onde pediu que lhe arranjassem um alguidar com água e sabão e saiu para o pátio interior onde levou as miúdas.

Eu só tive direito a limpar a cara.

Por fim, depois de um bom almoço, lá seguimos de novo "devagar - devagarinho", em direção á Régua, onde parámos para desentorpecer as pernas. Por fim, na mesma cadencia, dirigimo - nos a Freixo de Numão, que era onde tinha nascido a Avó Delfina e que ela julgava que conhecia muito bem. Mas tinha de lá saído aos 17 anos e nunca mais tinha voltado, pois agora já poderia fazer uma vez que a família já considerava isso correto --- já tinha falecido o "corpo de delito", o meu avô Bento.

Sempre seguindo o Rio Douro por picadas de terra batida, chegámos a uma estrada conhecida pela "bateiras", em que a diferença das outras era ser muito estreita, contornar a Serra, que de um lado  apresentada uma rocha altíssima, bruta e húmida, e da outra um tremendo precipício que não era protegida por nenhum muro, ou qualquer coisa do género.

O pai assobiava para conter o medo do que poderia suceder, a Mãe olhava para a rocha, para não olhar para a fundura em que poderíamos cair. A Avó não dizia nada e só olhava para a frente. Eu .... pela primeira vez na vida senti a sensação de ter um medo imenso de alturas. Nunca mais me curei.

Chegámos a Freixo...