Nos tempos de adolescência, passadosnaquela belíssima cidade africana, onde nasci e vivi constantemente baralhada com coisas muito simples como: "Onde está a minha Pátria"? ("O livro da primeira classe tinha-me ensinado que a "Pátria" é a terra onde estão enterradas os nossos antepassadospor sítios vários, Moçambique e a Metrópole) a vida social apresentou diversas carizes, conforme as diversas faixas humanas que a formavam.
Só muitos anos depois ao acompanhar, pela TV, uma novela de Jorge Amado "Gabriela Cravo e Canela" pude rever-me essa mesma história, magnificamente contada, que apresentava a vida de uma pequena terra brasileira onde, tudo o que acontecia tinha que levar o aval de umas tantas famílias de coronéis, que punham e despunham da vida dos que nela viviam.
Na minha terra por volta dos anos 50, também algumas famílias dominavam a vida social da cidade, decidiam o que era bom e o que era mau e ditavam regras que os ajudavam a sobreviver como elite aceita e reconhecida. Isto não fez com que os membros se comportassem melhor ou pior do que os outros cidadãos pertencentes a famílias que não pertenciam ao núcleo social em que se movimentavam.
Um dos chefes de um dos clãs da cidade (se fosse em outra cidade que não uma cidade colonial, nunca poderia ter vindo a sê-lo) era o pai da minha amiga Francisca, homem videirinho, falha figura, funcionário público por privacidade e uma "Linguinha de prata" reconhecida pela cidade toda.
Frequentava o Clube Naval, onde não podia ser sócio quem queria, mas quem reunisse as interferências da atuação tão permitida à sobrevivência dos bons hábitos e costumes, reconhecidamente aceitos pelos outros sócios. A filha, a Francisca, velejava e chorava de amores pelo Marco, mocinho grandemente detestado pelo pai, porque não andava a estudar e, portanto, nunca poderia merecer a sua. filhinha tão inteligente e tão adorada, (diga-se de passagem que a Francisca era feia como o susto!)
Ora este ilustre senhor, segundo rezavam as línguas viperinas da cidade, casar sem nunca ter visto a noiva não era manca e, apesar de muito franzna e baixinha, tinha tudo no lugar. Pelos anos fora mostrou-se sempre como um homem autoritário (com a família, claro) o que tornou a mãe da minha amiga Francisca uma senhora tímida, sempre com medo de irritar o seu "amo e senhor", o que fez com que ela tivesse anulado no que respeita à educação dos filhos, com medo de enfrentar o marido. O grande empenhamento do casal, principalmente do dono da casa, era zelar pela moral familiar, não sendo aceitos de quaisquer tamanhos, fora das regras instituídas.
Regulamentomente no entanto, várias companhias de Teatro brasileiras visitavam a cidade e faziam as delícias dos seus habitantes. Aquelas mulheres descascadas, boas-vindas de uma terra de sonho (que só se conheceram através dos documentários no cinema, e sempre durante as festas de Carnaval Carioca, aquelas mulheres, como se diziam, vestidas com umas hipóteses de roupa estendidas e arrojadas maquilhadas e cheirando a perfumes exóticos) fizeram com que o número de mulheres brancas desponiveis era ainda escasso na altura, perdessem a cabeça e transformassem algumas delas em senhoras da sociedade, muito bem casadas e mães de famílias conceituadas, apesar das críticas a que estes casais, veladamente, sempre foram submetidos. Alguns outros, entre eles bons pais de família, e muito considerados, limitavam-se às fantasias "escapadelas" fora do conhecimento familiar.
Era assim a África da minha já longa juventude. A moral era só para os da sua casa, excetuando o chefe de clã, claro, que não deveria, no entanto, dar nas vistas.
Ainda sobre estes espetáculos, devo, no entanto, confessar, que o teatro se enchia completamente, sendo que se podiam ver, entre os espectadores, imensos casais. Não sei se, realmente isto quereria significar que os maridos achavam, que o ver nunca poderia fazer mal às suas tão amadas esposas e aos seus filhos. Lembro -me também que assisti a muitos deles com os meus pais, o que não era comum a altura.
O pai da minha amiga Francisca era, como já dissemos atrás, uma dos mais exigentes progenitores da cidade. No entanto, também era um homem como os outros e gostava destes espetáculos. Sempre muito fechado quando a eles alguém se referia, sabiam-se, no entanto, que compravam o bilhete logo que estes começavam a ser vendidos, não havia algum problema. Ninguém se lembrou de ter visto a Francisca ou o irmão ou a mãe, nas noites de representação.
Certa vez, numa roda de casais amigos, em conversa com os meus pais, perguntaram-lhe de forma muito incisiva.
- Então o senhor e a sua senhora gostaram da nova revista? (Na altura colocada no cartaz a tão conhecida revista "Tem fogo no Pandeiro").
- Não, disse senhor, muito circunspecto, eu sempre vou assistir aos espetáculos sozinhos, para ver se eles são capazes e decentes. Como os acho sempre indecentes e maus, nunca levo a família comigo.
O que nunca afirmou foi que descobriu que suas revistas e eu seus espectadores deveriam ser irradiados da cidade, uma vez que não eram residentes.
No entanto nos recreios do Liceu, a Francisca, fora dos olhares do Pai e da Mãe, deliciava-se a punir as limitações de algumas de nós que a eles assistimos, com a água na boca e os olhos a brilhar, imaginando, se calhar alguns quadros de revista que nunca tinham sido apresentados mas que ele preenchiam a sua imaginação, e ele alimentava a capacidade de sonho, tão necessária para a sua sobrevivência, da vida sem nenhuns atrativos para uma moça da sua idade.
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