O Boguinhas

Publicado em 27 de julho de 2026 às 17:21

Os fatos só são verdadeiros depois de serem inventados

"Crença de Tizangara" 

Mia Couto

O meu carro tinha um nome, como toda a gente que se preza. Fora batizado de Boguinhas e a partir dai passou a ser membro da família. Pequenino com apenas dois lugares, possuía um banco corrido, atrás, onde estava encaixado a bateria. Este banco foi transformado por mim - tirei-lhe a parte do encosto e as crianças, todas, viajavam ali, ao contrário, as pernas enfiadas na bagageira. Era descapotável, o Boguinhas, branco, capota preta, amovível e de metal, vidros de plástico nas janelas e capota preta e tinha, como raridade, limpos -vidros, também, nos faróis da frente, que funcionavam mesmo a torreira do sol escaldante, para o gáudio da meninada.

Era, no entanto, velhérrimo e tinha sido restaurado em Suazilândia, exceto no painel da frente, cheio de mostradores, que ninguém tinha paciência de pôr a funcionar.

Se o Boguinhas puder contar tudo o que passou, nas minhas mãos, talvez tenha conseguido uma obra maior do que os "Miseráveis" de Vito Hugo. Mas a Boguinhas não se manifesta. Caladinho, sempre pronto, rodava, rodava, devagarinho, pois não conseguia andar a mais do que 60 km/h.

Os travões do carro eram hidráulicos. Para trabalhar, muitas vezes, tinha de lhe dar várias "patadas". E, mesmo assim, por várias vezes, também tive que encostar a roda ao passeio para conseguir.

Frequentemente, rodando pelas ruas cobertas de lindas acácias rubras, falei com ele sobre os meus pesares e as minhas alegrias e sempre me senti muito seguro, pois me converti para onde eu quis, gentilmente e sem perguntas indiscretas.

Foi então que combinei com Eugénia, minha prima e companheira de infância, irmos passar um fim de semana ao Xai Xai, uma belíssima praia, a umas centenas de quilómetros de L. Marques (Maputo). Decidimos ir no Boguinhas e não na "pileca" dela, pois era mais agradável, com a temperatura que estava e bonito sol, seguirmos num "bólide" descapotável. E assim pensamos, também, tentar bronzearmo - nos, um pouco, na viagem, que seria longa, devido às limitações do nosso "amigo".

Enchemos as malas e o banco de trás (onde as crianças geralmente viajam) de enlatados, cigarros e alguma roupa leve. Nós, de fato de banho vestido e uns calcõeszecos, meio esfarrapados, partimos a descoberta da África profunda - uma verdadeira aventura.

Partimos de madrugada e tudo correu bem. Almocámos num restaurante de estrada a meio do caminho. Logo quando entremos reforçamos que havia vários soldados ao balcão, beba uns copos. Tudo bem. O pior é que tinham as armas no corredor da entrada, encostadas a um canto, deserto porque eram muito pesadas. Estamos logo um pouco atrás e decidimos não nos atrasar

Depois de um almoço rápido, seguimos caminho, pois não queríamos chegar ao Xai-Xai, e ainda temos uns bons quilómetros a percorrer.

E lá fomos. O Boguinhas até aí estava a aguentar - se bem, e tínhamo-nos abastecido de gasolina na hora do almoço.

Foi então que, já bem perto do Xai-Xai, verificamos de repente, que estávamos à entrada de um quartel da FRELIMO... Era uma pequena vivenda, no fundo de uma ribanceira e nós, cheias de sede e julgando que era uma simples casa de família, virámos e descemos pela ribanceira direito à casa... Que servisse para aquartelar as tropas da Frelimo, que se dedicassem ao controle da estrada.

Fechei os olhos e pedi encarecidamente a ajuda divina e, sem conseguir parar o Boguinhas (pois os travões não funcionaram, certo devido ao meu nervosismo) este entrou que nem um carro da fórmula 1 pelo portão adentro, deixando os guardas da estrada completamente extasiados, e só parou no fim do jardim, quando bateu contra o muro. Foi então que eu e a Eugénia a minha prima, abrimos os olhos, um de cada vez, sem querer acreditar no que nos tinha acontecido.

A partir dai foi um pesadelo,. Interrogaram-nos pela agressão a um posto avançado das forças governamentais e viramiaram-nos, com as guerrilheiras a apreciarem as nossas roupas, principalmente o interior. De seguida sequestraram tudo o que estava no carro, (comida, cigarros, roupa e dinheiro). Obrigado de agradecer muito ao comandante a sua boa vontade ao nos deixar telefonar para L. Marques, para pedir ajuda, para nós identificarem e nos irem procurar (o que não foi necessário). Por fim lá nos deixamos seguir viagem.

Já não fomos até ao Xai-Xai e voltamos para casa, com ar de grandes senhoras. Chegamos, muito fora de horas, e, claro, não contamos nada a ninguém da família.