O Boguinhas

Publicado em 27 de julho de 2026 às 17:21

Os fatos só são verdadeiros depois de serem inventados

"Crença de Tizangara" 

Mia Couto

O meu carro tinha um nome, como toda a gente que se preza. Fora batizado de Boguinhas e a partir dai passou a ser membro da família. Pequenino com apenas dois lugares, possuía um banco corrido, atrás, onde estava encaixado a bateria. Este banco foi transformado por mim - tirei-lhe a parte do encosto e as crianças, todas, viajavam ali, ao contrário, as pernas enfiadas na bagageira. Era descapotável, o Boguinhas, branco, capota preta, amovível e de metal, vidros de plástico nas janelas e capota preta e tinha, como raridade, limpos -vidros, também, nos faróis da frente, que trabalharam mesmo a torreira do sol escaldante, para o gáudio da meninada.

Era, no entanto, velhérrimo e tinha sido restaurado em Suazilândia, exceto no painel da frente, cheio de mostradores, que ninguém tinha paciência de pôr a funcionar.

Se as Boguinhas pudessem contar tudo o que passou, nas minhas mãos, talvez conseguisse uma obra maior do que os "Miseráveis" de Vito Hugo. Mas as Boguinhas não se manifestaram. Caladinho, sempre pronto, rodava, rodava, devagarinho, pois não conseguia andar a mais do que 60 km/h.

Os travões do carro eram hidráulicos. Para trabalhar, muitas vezes, tinha de lhe dar várias "patadas". E, mesmo assim, por várias vezes, também tive que