A MINHA AMIGA JOANA

Published on April 10, 2026 at 2:16 PM

A VIDA É UM BEIJO DOCE EM BOCA AMARGA

   

                                               Depoimento de um feiticeiro

                                                "MIa Couto"

A Joana era minha amiga de coração. Conhecemo-nos quando entramos para a Escola Primária Rainha Santa Isabel e andámos juntas até ao 5ª ano do Liceu.

Fomos sempre parceiros de carteira e também, de sempre, discutimos o uso dos lápis e das borrachas (que ela tinha em boa conservação) e, que eu, nunca sei onde estavam as minhas, me entretinha a usar.

Esta nossa amizade durou até que a sua morte, prematura, a levou.

Como já afirmei, tinha uma verdadeira inspiração pela Joana, mas também pela sua casa e pelas suas duas avós.

Era uma verdadeira casa colonial em madeira e zinco, pobre, onde ela vivia com os pais, um avô duas avós, e um irmão, o "JoJo"(rapaz chatinho e irritante).

A casa foi construída sobre pilares, onde assentava um chão de tábuas corridas de madeira, sempre muito encerado, no centro de um terreno sem jardim, apenas com um enorme cajueiro, já de proveta idade.

Nas tardes calmas de verão, nós brincávamos muito na "caixa aberta" formada pelo espaço delimitado pelos pilares, que eram a sustentação da casa. Ai tendo como teto o chão da casa, fazíamos pequenas praias, casinhas, escolinhas, num imaginário chão de cor, e criávamos as nossas filhas ( bonecas enormes, de celulóide, cujas roupas eram confeccionadas pelas avós) e, ainda, noutras alturas, usávamos as bonecas de papel, recortadas dos figurinos velhos da minha mãe, que colávamos em cartolina e vestiamos com roupa que nós fazíamos de pratas dos chocolates, ou até papel colorido de embrulho.

Depois de almoço em casa da minha amiga, o barulho parava. As avós vinham para a enorme varanda de rede, que se situava na parte da frente da casa, costurar ou bordar, mas pouco depois, já dormitavam. A mãe ficava na cozinha, claro, a preparar o lanche, que viria a meio da tarde, e nós íamos para o lugar preferido.

Um dia em que, de tarde estávamos na nossa azáfama de vestir e despir bonecas de papel, o jojo decidiu vir-nos infernizar a vida. E agarrando num pau começou a bater no teto que nos cobria e que apenas era o chão da varanda onde encontravam as avós, a descansar, e o barulho foi tal, que as acordou e o buraco que fez ainda foi maior.

Uma das avós acordou repentina e ao levantar-se enfiou a perna no dito buraco e foi preciso puxá-la para puder sair. A pobre da senhora gemia cheia de dores e tiveram de chamar uma ambulância que ia levar para o hospital.

Mas o Jojo apenas teve uma reprimenda. Era o rapaz da casa, o futuro da família.

Mas, a Joana e eu andávamos sempre em grandes aventuras. 

Eu, na altura tinha uma bicicleta, uma verdadeira pasteleira. Enorme, eu gostava muito dela e ia sempre para as aulas num grupo que ocupava a rua a toda largura. A Joana não tinha bicicleta, e passava o tempo, que podia, a pedir-me para andar na minha.

Um dia fomos passear na Avenida Pinheiro Chagas, ela convenceu-me a levar a bicicleta. Caminhávamos devagar, eu com a bicicleta à mão, e a Joana não me largava. Então contava-me que tinha conseguido treinar (não sei onde) umas proezas e que mais queria mostrar. Eu não queria, mas era a Joana e eu acabei por deixar.

Cedi. A minha amiga montou naquele importante veiculo, mas, para justificar o que me tinha dito, decidiu andar nele colocando a perna esquerda no pedal direito e a perna direita no pedal esquerdo.

Ficámos tristíssimas.

Fui para casa, arrumei a bicicleta na garagem para não ver o guiador estava torcido e combinei com a minha prima Mariana da minha idade e que percebia dessas coisas, que me viesse ajudar a colocar tudo direito, antes que a minha mãe visse.

Assim foi. Com material de ataque (um martelo e uma chave de fendas ( do avô dela ) apareceu nessa tarde.

Verificou o que tinha acontecido, e disse-me, isto é fácil, com umas pancadinhas vai ao sitio, mas na verdade, isso nunca aconteceu porque o arranjo levou a que o guiador ficasse muito mais alto, não conseguindo nunca mais ser o mesmo-

No dia seguinte, minha mãe olhou para a bicicleta, e perguntou-me o que tinha acontecido e eu, com um ar seráfico, respondi que tinha querido aumentar o guiador porque eu já tinha crescido um pouco e tinha pedido á Joana tratar disso. Tinha sido um bom trabalho e sentia-me muito bem.

Foram os melhores anos da minha vida. Foi um tempo que ainda está presente na minha memória e de que tenho saudades.