Quando nasci, os meus pais viviam na rua Pero Alenquer, com a Avó Delfina e ainda o Francisco e o Jorge, primos, filhos da Tia Gertrudes, que foram para a ilha de Moçambique com o marido, Tio Bernardo, filha, a Rita.
O Francisco e o Jorge ficaram com a avó, pois já eram frequentadores do Liceu.
A casa era pequena, mas chegava para todos.
O quarto da Avó Delfina estava ligado às redes, eu a Graça e a Rosa, por uma porta de ligação. Foi através dessa porta, que ficou aberta toda a noite, que fiquei a saber as histórias da família.
No entanto, ninguém entrou no quarto da Avó sem a sua autorização. Eu não me importava nada de não poder lá entrar, pois, por detrás da sua cama havia um retrato do seu avô Bento pendurado na parede, uma fotografia enorme que, devido ao ângulo em que tinha sido tirado, os olhos do meu avô seguiam-nos para qualquer lado onde estivéssemos.
Mas vou voltar ao aeródromo, que foi a minha intenção inicial.
Quando se mudou para aquela casa, acabada de construir, não existiam mais casas ali perto, pois era uma zona nova de construção. Mas, um pouco mais longe, fez aquilo que era o novo aeródromo de L. Marques, um terreno enorme, capinado, vedado com um arame grosso farpado onde aterravam algumas avionetas.
Não existiam luzes nesse campo e, se houvesse necessidade, usava-se uma buzina de automóvel que avisava, a quem estivesse perto, de que havia necessidade de ajuda. Ó aviador
Certo dia um aviador, pessoa muito conhecida no burgo, não calculou bem a direção do vento, e, ao aterrar, a avioneta chocou com o creme farpado, virou-se de rodas para o ar e o pobre do aviador ficou, ali suspenso de cabeça para baixo.
Fez-se o chamamento com a tão útil buzina. A população das redondezas, pouca, mas amiga, pegou nos carros existentes e dirigir-se ao campo a "grande velocidade" e foi a luz dos seus "bolides" que ajudou a tirar o aviador da Carlinga e a recuperar a avioneta.
Apesar do sucedido do jovem piloto, houve festa apesar do grande susto sofrido pelo piloto.
Tenho muitas reclamações daquela casa onde vivi. Quando tinha cerca de 5 anos, os jovens de Lourenço Marques foram chamados para a tropa, que não era obrigatória, fazia-se ao domingo. Era preciso a todo o custo defender aquela, então território de Moçambique tão cobiçada pelos povos vizinhos.
Claro que o meu Pai integrou esse movimento e, todos os domingos, lá partia com o seu grupo para o treino, junto do velho aeródromo, onde tinham sido construidos algumas instalações para o Exército.
E eu esperava-o também todos os domingos, á porta de casa. Quando ele chegava, fazia-me a continência e punha-me o seu boné. Os amigos, também me cumprimentavam e era com muito orgulho que eu entrava em casa ao colo do meu Pai.
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